Hepatite C – a questão sexual

É bem frequente recebermos casais angustiados em que um dos parceiros tem o vírus da hepatite C (VHC) e o outro não. Querem saber como proceder, de que modo essa questão vai ou não afetar a sua vida íntima ou suas práticas sexuais. Devemos saber o seguinte:

  • O exato risco de transmissão sexual do VHC em relacionamentos heterossexuais monogâmicos tem sido difícil de determinar. Mas é bem baixo.
  • Na verdade, o risco em parceiros sexuais de longa data é muito baixo. O risco de transmissão a longo prazo é de 0,01% ou menos.
  • Fatores que aumentam o risco de transmissão sexual: um número maior de parceiros sexuais (“promiscuidade, meu irmão”), história de doenças sexualmente transmissíveis e não usar preservativos (particularmente entre os promíscuos).
  • Muito frequentemente é difícil afastar a possibilidade que a transmissão tenha resultado de outros fatores de risco do que a via sexual – por exemplo o casal compartilhava o uso de drogas endovenosas.
  • Homens que tiveram relações sexuais com homens, sem preservativo, pode ocorrer a transmissão mais facil do VHC. Parece que a lesão mucosa é um pré-requisito para a transmissão. A soro prevalência do VHC nesses grupos varia de 4 a 8%, que é maior do que em grupos heterossexuais. Ter muitos parceiros sexuais num curto espaço de tempo também aumenta o risco.
  • Pessoas com hepatite C aguda ou crônica devem ser avisados que a transmissão sexual é uma possibilidade, embora remota, sendo extremamente baixa em relações heterossexuais. É possivel que o uso de preservativos reduza ainda mais esse risco. Entretanto, na maioria dos países não existe uma recomendação forte para que casais heterossexuais, monogâmicos passem a usar o preservativo.
  • O risco da transmissão em homens que tiveram relações com homens é consideravelmente maior – em conjunção com risco de transmissão de outras doenças sexualmente transmissíveis – conduz a recomendações para a prática de sexo seguro nesses grupos.

Sparvoli

Sobre Antonio Sparvoli

Médico. Gastroenterologista. Mestrado e Doutorado. Professor Titular da Fundação Universidade Federal de Rio Grande.
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5 respostas a Hepatite C – a questão sexual

  1. Nádia Elizabeth Cardoso Barbosa diz:

    Olá Dr. Sparvoli

    Esta é uma questão ao mesmo tempo negada e delicada, mesmo em casais heterossexuais, monogâmicos.
    Gostaria de ouvi-lo em relação a esta colocação: se o parceiro tem alta carga viral e relação anal, com ferimentos em ambos, pode sim infectar com maior facilidade? Aumentando este percentual?

    • Cara Nádia Elizabeth
      Importante a sua pergunta. A resposta: sim. Particularmente possível no exemplo que foi colocado, com lesão em ambos, o que amplificaria a porta de transmissão. Maior probalidade ainda se for uma pratica freqüente para o casal. Certamente na situação referida o casal deve optar pelo uso do preservativo.
      Obrigado pela pergunta!
      Saúde!
      Sparvoli

      • Nádia Elizabeth Cardoso Barbosa diz:

        Caro Dr. Sparvoli

        Sou esposa de portador negativado desde jun/05. Não tinha como prática o uso de camisinha.
        No entanto até março/08, quando ocorreu este fato, comprovado, com a esposa de um portador do interior do RS, não negativado, genótipo 1, com demanda judicial para retratatamento, com peguilado, e alta carga viral, confesso que nas falas em palestras que fazíamos nunca dei ênfase especial a este aspecto.
        E não foi por falta de orientação da enfermeira da vigilância epidemiológica das hepatites virais da CGVS/SMS/PMPA sempre afirmando que, sim o contágio é bem mais possível do que imaginamos. Mesmo que gire em torno de 5 a 6% (?).
        Na verdade não temos quase, no Brasil, estudos que possam comprovar a prevalência de infecções pela via sexual, para o vírus da hepatite C, em casais heterossexuais e monogâmicos.
        Sendo assim, hoje colocamos a necessidade do uso do preservativo porque, por menor que seja o índice neste perfil, na hora em que a pessoa é infectada o percentual mínimo vira 100%.
        E tudo fica mais difícil se não houver nenhum indício como o quadro de uma hepatite C aguda (enzimas alteradas, icterícia, colúria), que levariam a pessoa ao serviço e em detectada ainda teria oportunidade de entrar com a medicação na tentativa de não cronificar…

        Grata pelo retorno🙂
        Nádia Elizabeth
        Coordenadora
        Hepatchê Vida – Grupo de Apoio
        Porto Alegre/RS

      • Cara Nádia Elizabeth
        Em primeiro lugar fico feliz por saber que seu esposo alcançou a negativação. Também quero lhe agradecer por estar participando da luta contra a hepatite C, com palestras, certamente, muito valiosas e úteis para os nossos semelhantes. Ainda persiste muita falta de informação e creio extremamente significativas as iniciativas para combater esse problema. Por outro lado, nas palestras temos que transmitir informações mais gerais, sendo mais difícil particularizar as questões, especialmente as íntimas, que muitas vezes são melhor trabalhadas no sigilo do consultório. Você tem razão ao afirmar a existência de muitas questões que não foram plenamente pesquisadas em estudos nacionais. Desse modo, temos que nos valer das informações obtidas em estudos internacionais bem feitos. É claro que é mais simples, seguro e fácil dizer para as pessoas que devem usar preservativos. Essa sempre será uma boa recomendação! Até mesmo por que as práticas sexuais podem fugir ao que habitualmente se esperaria e, como muito bem você disse, sempre serão um assunto negado e delicado. Por outro lado, a experiência clínica realmente demonstra que em inúmeros casais, depois de anos e anos de vida sexual ativa, apenas um dos parceiros permanece com o vírus C positivo. Outros que acham que houve transmissão sexual, ao se verificar, tem genótipos diferentes – não tendo, claramente ocorrido compartilhamento sexual. Adicionalmente, em alguns casais, ambos portadores, que se poderia pressupor uma transmissão sexual, com o tempo, contam para seus médicos que compartilhavam seringas. Acrescente-se que para alguns casais, particularmente homens com mais idade, a obrigatoriedade do uso do preservativo, pode introduzir naquela relação monogâminica, de longa data, um fator complicador de consequências imprevisíveis para a manutenção daquele relacionamento. Por outro lado, é inquestionável a transmissão sexual, embora pequena. Aceito a posição da enfermeira da vigilância epidemiológica, que está cumprindo muito bem seu papel, mas os valores que ela coloca, para um casal heterossexual, monogâmico, (5-6%) por todas as evidências práticas e científicas são certamente muito maiores do que ocorre na realidade. Assim. após deixar claro para os casais, que essa afirmação se refere a cônjuges heterossexuais, monogâmicos, em que um tem o vírus e o outro não, explico que a OMS orienta que não há necessidade de mudarem suas práticas sexuais, contudo, se quiserem segurança absoluta, então o casal passe a usar o preservativo. É nossa obrigação a informação o mais exata possível, mas ao final, o casal tomará suas decisões. Espero que tenha conseguido transmitir de maneira clara minha conduta nessa situação complexa.
        Saudações
        Sparvoli

  2. Edilaine diz:

    great and educative content, thanks for being so important for the education.http://www.divulgaemail.com

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